A escolha de um fornecedor de software raramente corre mal na fase de venda. Corre mal dezoito meses depois, quando alguém pergunta onde está o código-fonte, ou porque é que uma alteração de regra fiscal exige uma nova versão da aplicação, ou quem aprovou uma alteração que ninguém consegue localizar.
Todas essas situações são previsíveis. Este artigo reúne as doze perguntas que as previnem — feitas antes de assinar, quando ainda tem poder negocial.
As perguntas comerciais
1. Quem é o dono do código-fonte quando o projecto terminar?
A resposta certa é "o cliente", por escrito, no contrato. Se a resposta for "licenciamos-lhe o uso", está a alugar e não a comprar, e o custo de sair cresce todos os anos. Peça para ver a cláusula, não a garantia verbal.
2. O que acontece se a nossa relação terminar?
Peça o plano de saída concreto: exportação de dados em formato aberto, entrega de repositórios, documentação de infra-estrutura, transferência de credenciais, e um período de transição definido em dias. Um fornecedor confiante escreve isto sem hesitar. Um fornecedor que resiste está a dizer-lhe algo importante.
3. Quem vai efectivamente escrever o código?
A equipa que aparece na apresentação comercial não é sempre a equipa que executa. Peça nomes, senioridade e percentagem de alocação. Pergunte se há subcontratação e para quem.
4. Como é calculado o preço, e o que dispara um custo adicional?
Preço fixo, tempo e materiais, ou equipa dedicada — cada modelo tem um caso de uso legítimo. O que importa é saber o que conta como alteração de âmbito e quem decide. Peça um exemplo concreto: "se precisarmos de acrescentar um campo a um formulário existente, isso é trabalho incluído ou orçamentado?"
As perguntas regulamentares — específicas de Angola
5. As regras fiscais estão em código ou em configuração?
Esta é a pergunta mais reveladora de todas. Se o IVA, as retenções ou os limiares de aprovação estiverem escritos no código, cada alteração legislativa passa a ser um projecto de desenvolvimento, com o calendário e o custo que isso implica.
Pior: se uma factura antiga for reemitida, é recalculada ao abrigo da regra de hoje em vez da que estava em vigor na data de emissão. Isto não é um pormenor técnico — é uma inconsistência que aparece numa inspecção.
A resposta que quer ouvir envolve configuração com data de efeito: as regras têm um início e um fim de vigência, e um documento é sempre calculado com a regra vigente à sua data.
6. Como tratam o SAF-T e a facturação electrónica?
O ficheiro SAF-T deve ser exportado a partir dos mesmos lançamentos que alimentam o reporte interno — uma fonte, não duas. Se o fornecedor descrever um processo separado de "preparar o SAF-T", vai ter duas verdades contabilísticas e um trabalho de reconciliação todos os meses.
Sobre facturação electrónica: pergunte directamente qual é o estado de certificação ou validação do software junto da AGT, e peça a resposta por escrito. É uma pergunta legítima e a evasiva é informativa.
7. Se operarmos no sector petrolífero, o que sabem de conteúdo local e da ANPG?
O regime de conteúdo local e a qualificação de fornecedores devem ser calculáveis e auditáveis dentro do sistema, não discutidos numa folha de cálculo antes de cada reporte. Se a resposta for vaga, o fornecedor vai aprender à sua custa.
8. Onde ficam alojados os dados, e podemos escolher?
Desde a inauguração do data center nacional em Abril de 2026, alojar em território angolano deixou de ser impraticável. Isso não significa que seja automaticamente a escolha certa — pergunte pelo SLA contratado, pelas certificações da instalação e por onde fica a réplica geográfica.
As perguntas de engenharia
9. Posso apagar um registo transaccional?
A resposta certa é "não". Documentos devem ser cancelados, anulados, revertidos ou versionados — nunca eliminados. Um sistema onde as linhas podem ser editadas ou removidas tem um rasto de auditoria que vale exactamente tanto quanto a boa-fé da última pessoa que lá mexeu.
10. Como funciona o registo de auditoria?
Procure três propriedades: apenas-de-adição, imutável para utilizadores comuns, e com um identificador que permita seguir um fluxo completo do pedido ao lançamento contabilístico. A pergunta de seguimento que separa as respostas sérias das outras: a conta da aplicação tem permissão de escrita sobre as tabelas de auditoria? Se tiver, a imutabilidade depende do código se portar bem.
11. Que evidência de teste acompanha uma entrega?
Não pergunte "fazem testes" — toda a gente diz que sim. Pergunte o que é entregue com cada funcionalidade e peça para ver. Testes de permissões e de casos negativos são os que contam num sistema com perfis de acesso; são também os primeiros a ser cortados quando o prazo aperta.
12. O que acontece quando não sabem uma regra regulamentar?
A resposta que quer é que a função fica bloqueada e configurável até alguém confirmar a regra numa fonte primária. A resposta que não quer é um valor por omissão com aspecto plausível, porque esse valor entra em produção e ninguém volta a olhar para ele.
Como conduzir a avaliação
Reduza a três fornecedores e faça as mesmas doze perguntas a todos, por escrito. As respostas comparáveis dizem-lhe mais do que qualquer apresentação.
Depois peça a cada um para mostrar software a correr sobre dados realistas. Não um protótipo, não slides. Trinta minutos de um sistema real respondem ao que duas semanas de propostas não respondem.
E telefone a uma referência de um projecto do mesmo tipo — não do cliente mais famoso, do projecto mais parecido com o seu.
Se quiser ver quem opera neste mercado e em que é que cada um se especializa, reunimos isso em empresas de software em Angola: quem faz o quê. E se quiser aplicar estas doze perguntas a nós, temos as respostas por escrito — incluindo as que não nos favorecem.